sexta-feira, maio 04, 2007

O PAÍS DOS DOUTORES E ENGENHEIROS

A primeira surpresa para um estrangeiro que aterre em Portugal pode ser o número anormal de médicos que existe no país. Um ouvido atento em qualquer café de Lisboa, à hora das refeições, poderá contar pelo menos uma dúzia de: “Como está, doutor?”, “O que é que lhe apetece comer, senhor doutor?” (…)
Em Portugal, basta ter passado pelas salas de aula de uma universidade para obter o título de doutor. E, muitas vezes, nem é preciso tanto. Uma pessoa que ocupe um cargo de alta importância, ou que tenha, simplesmente, um ar de executivo, pode ser tratada por doutor pelo empregado do restaurante e, claro, pelos seus subordinados.
Quando não é doutor, pode ser engenheiro ou arquitecto. E se o empregado se engana, é possível que o próprio doutor, engenheiro ou arquitecto se encarregue de o corrigir. (…) A muitos portugueses soa ridículo, especialmente aos mais jovens. “Somos o país dos doutores e engenheiros”, dizem os críticos, com ironia. A ironia ainda é maior quando os números dizem que apenas dez por cento da população activa portuguesa possui formação universitária, a taxa mais baixa dos países da OCDE, cuja média é de 23 por cento. Ou, pensando melhor, talvez não seja tão irónico: aqui pode estar a chave do mistério de um tratamento tão diferencial a quem se limitou a frequentar a universidade.
No século XIX e no início do XX, os (poucos) filhos da burguesia e dos grandes proprietários rurais que conseguiam fazer estudos superiores regressavam à terra e eram conhecidos como “doutores”, senhores distintos e merecedores de grande reverência. A denominação manteve-se, apesar da democratização, e continua a ter o mesmo significado: é uma forma de admiração, diferença e superioridade que, em muitos casos, os próprios beneficiários se empenham em manter. Mesmo quando não querem aceitar este tratamento, os portugueses vêem-se obrigados a utilizá-lo, por estar tão enraizado. (…)

in, Courrier internacional, nº 102, Março 2007

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Ser-se "doutor" em Portugal é o tunning da Academia: normalmente demonstra mais do que aquilo que se tem.
No entanto, é importante que existam distinções nos títulos - desde que sejam bem atribuídos.
Mas o que realmente interessa, e estas discussões sobre títulos e a sua relevância servem apenas para tapar o Sol com uma peneira, é se o Primeiro-Ministro da nossa Nação falsificou o Curriculum ou, até, obteve ajudas no decurso do seu Bacharelato/Licenciatura. Se é mal formado para isto, é provável que o seja em relação a vários temas políticos - não estamos perante um julgamento de carácter como estão a tentar fazer crer...

domingo, 13 maio, 2007  
Anonymous Anónimo said...

Vamos exterminar a praga da doutorite em Portugal. Assine já a petição em http://www.petitiononline.com/fimdosdr/petition.html

domingo, 18 novembro, 2007  

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